segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Zen Budismo: a religião em si mesmo


Os ensinamentos do Zen Budismo se referem à incessante transformação de tudo que existe, à lei da causalidade e à capacidade de alcançar o Nirvana, descreve Monja Coen




“Não apenas a mística Zen Budista pode transformar o mundo, mas acredito que as várias tradições espirituais da humanidade têm o mesmo propósito: despertar para a verdade de que somos, estamos todos irmanados, compartilhando das mesmas necessidades primárias e que a felicidade de todos é a nossa verdadeira felicidade”. A opinião é de Monja Coen, missionária oficial da tradição Soto Shu - Zen Budismo com sede no Japão, expressa na entrevista a seguir, concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Monja Coen acredita no diálogo inter-religioso como um caminho para a construção da paz mundial e frisa que “ensinamentos como a Cura da Terra, enraizados na cultura budista, e a compreensão de que a Terra é o nosso corpo são fundamentais “para a mudança de um modelo mental egóico e delusivo (...), para uma compreensão da unidade e para desenvolver o voto da compaixão”.

Monja Coen é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, com sede em Pinheiros, São Paulo. Iniciou seus estudos budistas no Zen Center of Los Angeles - ZCLA. Foi ordenada monja em 1983, mesmo ano em que foi para o Japão onde permaneceu por 12 anos sendo oito dos primeiros anos no Convento Zen Budista de Nagoia, Aichi Senmon Nisodo e Tokubetsu Nisodo. Graduou-se no mestrado da tradição Soto Shu. Retornou ao Brasil em 1995, e liderou as atividades no Templo Busshinji, bairro da Liberdade, em São Paulo, sede da tradição Soto Shu para a América do Sul durante seis anos. Foi, em 1997, a primeira mulher e primeira pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, por um ano. Participa de encontros educacionais, inter-religiosos e promove a Caminhada Zen, em parques públicos, com o objetivo de divulgação do princípio da não violência e a criação de culturas de paz, justiça, cura da Terra e de todos os seres vivos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais sãos os fundamentos da mística Zen Budista? O que a diferencia de outras práticas orientais?

Monja Coen - Zen Budismo se caracteriza pela prática da meditação sentada (zazen) e da necessidade da experiência mística para a libertação. Esta libertação não é apenas individual, mas inclui todos os seres, toda a vida do multiverso. O silêncio, interior e exterior, é cultivado para o encontro com a mente iluminada, transparente e imaculada. Há inúmeras outras tradições religiosas no oriente e não conhecendo todas as suas variedades não me sinto apta a responder a segunda parte da pergunta.

IHU On-Line - A senhora pode nos explicar o papel das Três Joias: Buda, Darma e Sanga?

Monja Coen - As Três Joias ou Três Tesouros são os elementos de fé de uma pessoa budista. Buda significa alguém que despertou, alguém que se iluminou, que entrou em contato com a sabedoria suprema. Podemos falar de três aspectos: Buda histórico, Xaquiamuni (Shakyamuni Buddha), que fora o príncipe Sidarta Gautama, aquele que abandonou seu castelo, seus amores e bens materiais e teve a experiência mística da iluminação. Pregou por 45 anos, morreu com 80 e deixou inúmeros discípulos. O segundo aspecto é o ser iluminado em cada uma, cada um de nós. A capacidade da iluminação suprema que cada ser humano é. O terceiro aspecto é o de Buda Cósmico, tudo que existe, existiu e virá a existir é a natureza Buda se manifestando em incessante movimento de transformação e seguindo a lei da causalidade.

Darma significa a Lei Verdadeira e se refere aos ensinamentos do Buda Histórico, que viveu há cerca de dois mil e seiscentos anos. Há alguns selos ou marcas para identificarmos se é o Darma de Buda.

Os ensinamentos devem se referir à incessante transformação de tudo que existe, à ausência de uma alma imutável e eterna ou um eu fixo e permanente, à lei da causalidade ou origem dependente, à questão do sofrimento humano e a capacidade de alcançar Nirvana.

Discípulos de Buda escreveram seus ensinamentos e estes são divididos para fins didáticos no chamado Cânone Budista ou Tripitaka: Sutras ou Sastras - discursos de Buda, Vinaya - regras de comportamento quer monástico quer laicos, Abidarma - comentários filosóficos sobre os ensinamentos. Há muitas ordens budistas.

IHU On-Line – O Budismo é uma das maiores religiões do mundo em número de seguidores. A que a senhora atribui tanta procura de uma religião sem Deus?

Monja Coen - A que você atribui a tanta procura a uma religião baseada no conceito de Deus, como o Cristianismo? Há várias maneiras das pessoas manifestarem suas crenças, seu comportamento, sua entrega, confiança. Há inúmeras culturas e etnias. Podemos até considerar as raízes etimológicas da palavra religião - não apenas religar com algo acima de si mesmo, mas em si mesmo. E também relegere. Vale uma boa reflexão sobre o assunto. O que é religião?

Agora, quando pensamos por que pessoas ocidentais se interessam pelo Zen Budismo, eu poderia dizer que há uma procura de conhecimento - tanto de como a mente individual ou de como a mente coletiva se manifesta e funciona. Acredito que as práticas de Zazen (sentar-se em meditação) são uma das entradas principais para conhecer a si mesmo e transcender a si mesmo.

IHU On-Line – Na mística zen-budista é possível o diálogo com outras tradições religiosas? 
Monja Coen - Tenho percebido a importância do encontro inter-religioso para a construção de uma cultura de paz, justiça e cura da Terra. Desde meados do século XIX, esses encontros estão ocorrendo, e o diálogo se transforma em ações conjuntas para o bem comum.

IHU On-Line – Como a mística Zen Budista pode transformar a cultura da violência afirmada ao longo da história da humanidade e presente até mesmo em conflitos religiosos?

Monja Coen - Como um dos vetores. Se cada pessoa se transformar na não violência ativa haverá uma grande mudança. Conflitos religiosos refletem a violência que vivemos. Mas, muito já melhoramos. Não há mais cruzadas, inquisições e fogueiras. Nós, como humanidade, estamos crescendo e aprendendo a corrigir nossos erros. Não apenas a mística Zen Budista pode transformar o mundo, mas acredito que as várias tradições espirituais da humanidade têm o mesmo propósito: despertar para a verdade de que somos, estamos todos irmanados, compartilhando das mesmas necessidades primárias, e que a felicidade de todos é a nossa verdadeira felicidade.

IHU On-Line – Que ações são imprescindíveis para a construção da paz planetária? A senhora concorda que a proposta de uma ética mundial é o caminho?

Monja Coen - Sim, concordo que precisamos restabelecer uma ética mundial. Este fazer o bem pelo bem de todos inclui animais, plantas, aves, insetos, minerais, ar, água, terra. A ética do cuidado e do respeito. Inúmeras ações são necessárias. Educação ética transversal. Professoras e professores precisam ser capacitados a transmitir em suas disciplinas o respeito e compreensão às várias manifestações humanas da Terra. A compreensão de que a Terra é o nosso corpo é fundamental para a mudança de um modelo mental egóico e delusivo - considerar-se separado do todo -, para uma compreensão da unidade e para desenvolver o voto da compaixão. Seguindo a sugestão de Karen Armstrong, devemos - pessoas de todas as religiões e tradições espirituais - assinar o compromisso de trabalharmos para empoderar pessoas à capacidade da compaixão. Isso, definitivamente, fará grande diferença.

IHU On-Line – Quais são as contribuições que o Zen Budismo oferece à humanidade num momento de crise social, financeira e de ética em que nos encontramos?

Monja Coen - Que isso não é novo, nem foi criado agora, nem é particular do Brasil. Que há esperança. Que temos crescido e nos transformado como espécie. Que temos esta extraordinária oportunidade de haver nascido em uma época em que podemos ser a transformação que queremos no mundo. Que cada um de nós, fazendo o melhor de si em cada instante, está transformando a vida da Terra.

Também oferecemos cursos, ajuda solidária, educação e assistência. Criamos programas contra a discriminação e o preconceito e programas para a preservação dos direitos humanos, meio ambiente e paz - os três pilares da tradição Soto Zen Shu, à qual pertenço.

IHU On-Line – Como os ensinamentos e as práticas do Budismo, em especial a Cura da Terra, podem contribuir para pensar uma nova perspectiva para o caos ambiental do planeta?

Monja Coen - Compreendendo que somos a vida da Terra. Que a Terra é o nosso próprio corpo. A realização da Iluminação Suprema é a de que intersomos com tudo que existe.
Se percebermos a verdade e fizermos movimentos não violentos de educação popular e das elites dominantes, muito poderá ser obtido.

Talvez não possamos ver os resultados das causas e condições que criamos em nossas vidas, com nossas vidas, mas sei que o futuro depende das causas e condições que criamos aqui e agora, com nossa maneira de ver, falar, pensar, ouvir, compreender e agir no mundo.

Que seja pela paz, pela inclusão da grande natureza em nossos corações. Que possamos encontrar o diálogo e transformar cada instante de violência em um instante de paz.


Monja Coen concedeu entrevista à IHU On-Line
Por: Patricia Fachin

sábado, 26 de setembro de 2015

Um garotinho vai para o céu



foto: Lou Gaioto

Um garotinho bateu a porta do paraíso e quando São Pedro chegou, ele pediu permissão para entrar. São Pedro disse-lhe para esperar um pouco, enquanto ia consultar Deus. Enquanto esperava, o menino olhou em volta, para a ampla paisagem que o rodeava. Como era fim de outono, as árvores estavam cobertas com folhas douradas, avermelhadas, alaranjadas e verdes. Até onde o olhar podia alcançar, havia árvores fulgurantes, umas atrás das outras, colinas e colinas de beleza flamejante.

São Pedro então retomou.

- Eu tenho a resposta de Deus. Você vê todas aquelas árvores? - e mostrou com a mão 360 graus no horizonte.


O garotinho respondeu:


- Sim.


Pedro continuou:


- Deus disse que, quando as folhas tiverem caído dessas árvores tantas vezes quanto há folhas nas árvores, você poderá entrar no paraíso.


O garotinho sentou-se sem pressa e, olhando para São Pedro, disse-lhe:


-Por favor, diga a Deus que a primeira folha já caiu.


Extraído do livro A prática do Zen de Albert Low

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

TUDO EVOLUI









"Old Indian Woman"

de tempos em tempos costumava visitá-la; ia a sua tribo para escutar suas histórias.
no dia em que fez 107 anos, fui a seu teepee. estava nervoso, e lhe disse;

"roubaram nossas Terras."
e ela, "porque a terra não era realmente nossa."

eu, "eles deram à nossa gente cobertas com vírus da varíola."
e ela, "que nos ajudou a sobreviver a um dos piores invernos que tivemos."

eu, "eles não respeitaram os tratados."
e ela, "era somente papel."

eu, "eles espantaram os búfalos para nos matar."
e ela, "e nossos espíritos voaram e se tornaram águias e gaviões."

eu, "e então eles mataram nossos chefes."
e ela, "e eles se tornaram nossos ancestrais."

estava visivelmente irritado; ela me sorriu e falou,
"eu costumava alimentar o ódio, como você. hoje, não alimento mais."

a beijei; ela passou suas mãos ásperas por meus olhos, secou minhas lágrimas, e sussurrou, "tudo evolui."

na próxima lua fui visitá-la; ela havia partido e se tornado nossa ancestral.

(história narrada por um velho índio Lakota, escrita pelo Dr. em Antropologia da Universidade de Oklahoma James Cooper)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

NÃO PROCURE O BUDISMO








Foto: Rosacruz Áurea


Se você quer milagres, não procure o Budismo. O supremo milagre para o Budismo é você lavar seu prato depois de comer.

Se você quer curar seu corpo físico, não procure o Budismo. O Budismo só cura os males de sua mente: ignorância, cólera e desejos desenfreados.

Se você quiser arranjar emprego ou melhorar sua situação financeira, não procure o Budismo. Você se decepcionará, pois ele vai lhe falar sobre desapego em relação aos bens materiais. Não confunda, porém, desapego com renúncia.

Se você quer poderes sobrenaturais, não procure o Budismo. Para o Budismo, o maior poder sobrenatural é o triunfo sobre o egoísmo.

Se você quer triunfar sobre seus inimigos, não procure o Budismo. Para o Budismo, o único triunfo que conta é o do homem sobre si mesmo.

Se você quer a vida eterna em um paraíso de delícias, não procure o Budismo, pois ele matará seu ego aqui e agora.

Se você quer massagear seu ego com poder, fama, elogios e outras vantagens, não procure o Budismo. A casa de Buda não é a casa da inflação dos egos.

Se você quer a proteção divina, não procure o Budismo. Ele lhe ensinará que você só pode contar consigo mesmo.

Se você quer um caminho para Deus, não procure o Budismo. Ele o lançará no vazio.

Se você quer alguém que perdoe suas falhas, deixando-o livre para errar de novo, não procure o Budismo, pois ele lhe ensinará a implacável Lei de Causa e Efeito e a necessidade de uma autocrítica consciente e profunda.

Se você quer respostas cômodas e fáceis para suas indagações existenciais, não procure o Budismo. Ele aumentará suas dúvidas.

Se você quer uma crença cega, não procure o Budismo. Ele o ensinará a pensar com sua própria cabeça.

Se você é dos que acham que a verdade está nas escrituras, não procure o Budismo. Ele lhe dirá que o papel é muito útil para limpar o lixo acumulado no intelecto.

Se você quer saber a verdade sobre os discos voadores ou sobre a civilização de Atlântida, não procure o Budismo. Ele só revelará a verdade sobre você mesmo.

Se você quer se comunicar com espíritos, não procure o Budismo. Ele só pode ensinar você a se comunicar com seu verdadeiro eu.

Se você quer conhecer suas encarnações passadas, não procure o Budismo. Ele só pode lhe mostrar sua miséria presente.

Se você quer conhecer o futuro, não procure o Budismo. Ele só vai lhe mandar prestar atenção a seus pés, enquanto você anda.

Se você quer ouvir palavras bonitas, não procure o Budismo. Ele só tem o silêncio a lhe oferecer.

Se você quer ser sério e austero, não procure o Budismo. Ele vai ensiná-lo a brincar e a se divertir.

Se você quer brincar e se divertir, não procure o Budismo. Ele o ensinará a ser sério e austero.

Se você quer viver, não procure o Budismo, pois ele o ensinará a morrer.

Desfazendo Equívocos
Por Reverenda Yvonette Silva Gonçalves

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Canção de Milarepa

foto: Herman Dammar


Milarepa era um iogue que viveu no tibete entre 1040 e aproximadamente 1123. Seu mestre Marpa o fez construir e destruir casas de vários andares por sete vezes seguidas para purificar seu mal carma, acumulado por práticas de magia negra antes de se converter ao Dharma.



“O homem que pode observar sua mente sem distração

Não precisa tagarelar ou conversar.

O homem que consegue absorver-se em autoconsciência

Não precisa sentar-se com rigidez cadavérica.

Se ele conhecer a natureza de todas as formas

Os oito anseios mundanos* desaparecem por si mesmos.

Se ele não tiver desejo e ódio no coração

Não precisa exibir-se ou fingir.

O grande despertar da mente de Bodhi,

Que vai além do samsara e do nirvana,

Nunca pode ser atingida pela busca e pelo desejo.”



*As 8 preocupações(anseios) mundanas:

[1] querer ser elogiado; [2] não querer ser criticado;

[3] querer ganhar; [4] não querer perder;

[5] querer ter prazer; [6] não querer dor;

[7] querer ser reconhecido; [8] não querer ser ignorado.


(Canção de Milarepa para o Dharma Bodhi do Nepal, in Meditação na Ação, de Chogyam Trungpa, Editora Pensamento)

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Amor




foto: João Antônio

"Se um único homem atingir a plenitude do amor, neutralizará o ódio de milhões."

Mahatma Gandhi

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Prática incessante



Quanto tempo praticar? Para sempre.

O primeiro estágio da prática é conscientizar-se de que estamos sempre pensando em como nossa vida deveria ser (ou como era antes).

O que há em nossa vida neste preciso momento que desejamos evitar?

Tudo que for repetitivo, monótono, doloroso ou infeliz; não queremos correr no lugar com isso. Não mesmo!

O primeiro estágio da prática é dar-nos conta de que raramente estamos presentes, de que não estamos vivenciando a vida, de que estamos pensando sobre ela, conceituando-a, elaborando opiniões a seu respeito.

Um componente primordial da prática é perceber até onde esse medo e essa pouca vontade nos dominam.

Se praticarmos com paciência e persistência, entraremos no segundo estágio.

Começamos aos poucos a tomar consciência das barreiras de ego existentes em nossa vida: os pensamentos, as emoções, as evasivas, as manipulações, a todas essas facetas podem ser agora observadas e objetivadas com mais facilidade.

Essa objetivação é dolorosa e reveladora, mas se prosseguirmos, as nuvens que obscurecem o panorama ficarão mais tênues.

E qual é o terceiro e crucial estágio curativo?

É a experiência direta de tudo que nos apresente a vida.

Tão simples assim? Sim.

Fácil? Não.

Jamais crescemos se sonhamos com um estado futuro maravilhoso ou lembrando feitos passados. Crescemos sendo o que somos e estando onde estamos, vivenciando nossa vida tal como ela é, exatamente agora. Precisamos experimentar nossa raiva, nosso pesar, nossos fracassos, nossa apreensão, e eles podem ser nossos professores, quando não nos afastamos deles. Quando fugimos do que nos é dado, não podemos aprender tampouco crescer. Isso não é nada difícil de entender, embora seja difícil de executar. Os que persistem, contudo, serão os que crescerão em seu entendimento e em sua compaixão.

Por quanto tempo é necessária essa prática? Para sempre.



(Charlotte Joko Beck)

Combatendo a resistência

Um profissional Certa vez, alguém perguntou a Somerset Maugham se ele  escrevia segundo um horário ou somente quando lhe vinha a  ins...