terça-feira, 17 de novembro de 2015

Esqueça a felicidade

foto: Lou Gaioto


A felicidade dos três mundos desaparece num instante, como uma gota de orvalho em uma folha de grama. O maior nível de liberdade é aquele que nunca muda. Apontar para isto – esta é a prática de um bodhisattva.

A busca da felicidade por si só é uma missão de tolos. Como meta, ela é frívola e irrealista – frívola, porque a felicidade é um estado transitório que depende de diversas condições; e irreal, pois a vida é imprevisível e a dor pode surgir a qualquer momento.

A felicidade que você sente quando consegue algo que você sempre quis, geralmente, não dura mais do que três dias. Os estados de êxtase, na meditação, são semelhantes, mesmo que surjam como bem-aventurança física ou como a bem-aventurança do espaço infinito, da consciência infinita ou do nada infinito. Esses estados se dissipam tão logo você retoma a confusão da vida. Uma gota de orvalho em uma folha de grama, de fato!

A busca da felicidade é uma continuação da visão tradicional da prática espiritual – uma maneira de transcender as vicissitudes da condição humana. Valhalla, o paraíso, céu, nirvana, tudo isso mantém uma promessa de eternidade, felicidade, pureza ou união com uma realidade derradeira. Estes quatro anseios espirituais são todas as reações evasivas para os desafios dos encontros na vida.

Pare um momento e pense sobre o que você está procurando em sua prática. É uma espécie de transcendência, se não em Deus, então em um deus-substituto tal como consciência atemporal, puro êxtase, ou luz infinita?

Você está procurando por uma consciência tão profunda e poderosa que a sua frustração e dificuldades com a vida desaparecem na presença de sua compreensão e sabedoria? Você não está à procura de uma passagem para longe da confusão da vida?

Se você pensar em liberdade como um estado, você está, na verdade, em busca de uma espécie de paraíso. Ao invés disso, pense em liberdade como uma forma de experimentar a vida em si, um fluxo contínuo em que você se encontra com o que surge em sua experiência, aberto a isso. Faça o que precisa ser feito para aumentar a sua capacidade, e, em seguida, receba o resultado. E faça isso uma vez, outra vez. A liberdade que nunca muda torna-se, então, o exercício constante de tudo o que você sabe e entende. É a maneira como você se envolve com a vida. Não é algo que o distingue dela. De que outra maneira é possível, para as pessoas que realizam a prática na prisão ou em outros ambientes altamente restritos, dizer que encontraram a liberdade mesmo dentro de seu confinamento?

A vida é dura, mas quando você vê e aceita o que está realmente acontecendo, mesmo que seja muito difícil ou doloroso, a mente e o corpo relaxam. Há uma excelente qualidade que vem apenas ao experimentar o que surge, completamente, sem separação entre a consciência e a experiência.

Alguns chamam isso de alegria, mas não é uma alegria eufórica ou animada. É profunda e tranquila, uma alegria que, em certo sentido, está sempre lá, esperando por você, mas geralmente é tocada apenas quando algum desafio, dor ou tragédia te deixa sem opção, a não ser se abrir e aceitar o que está acontecendo em sua vida.

Outros chamam isso de verdade, mas esta é uma palavra carregada e enganosa, que carrega consigo a noção de algo que existe além da própria experiência. A verdade como um conceito estabelece uma oposição com o que é considerada uma “não verdade” e essa dualidade leva necessariamente à autoridade hierárquica, ao pensamento institucional e a violência.

Nesta liberdade, você está livre das projeções dos pensamentos e dos sentimentos, e você está acordado e presente em sua vida. Reações ainda podem surgir, mas elas vêm e vão por conta própria, como flocos de neve que descem em uma pedra quente, como névoa no sol da manhã, ou como um ladrão em uma casa vazia.

O que é a liberdade? Não é nada mais, nada menos, do que a vida que se vive acordado.

Todo sofrimento vem de querer a sua própria felicidade. O despertar completo surge da intenção de ajudar os outros. Portanto, trocar completamente a sua felicidade pelo sofrimento dos outros, esta é a prática de um bodhisattva.

Esqueça sobre ser feliz. Tire isso da sua mente.

Quando você diz para si mesmo: “eu quero ser feliz”, você está dizendo a si mesmo que você não está feliz, e você começa a procurar algo que vai fazer você se sentir feliz. Você vai ao cinema, vai fazer compras, sair com os amigos, comprar um casaco novo, um computador, joias, ler um bom livro ou explorar um novo hobby, em um esforço para se sentir feliz. Quanto mais você tenta ser feliz, mais você reforça a crença de que você não está. Você pode tentar ignorá-la, mas a crença ainda está lá.

Mesmo em relacionamentos íntimos, passando o tempo com um amigo, ou até mesmo ajudando os outros ou fazendo outras coisas boas, se a sua atenção é sobre o que você está sentindo, ou na vantagem que pode ter com isto, então você vê essas relações como transações. Porque o seu foco está em como você está se sentindo. Conscientemente ou inconscientemente, você está se colocando em primeiro lugar e os outros em segundo.

Esta abordagem te desconecta da vida, da totalidade de seu mundo. Inevitavelmente, você acaba se sentindo enganado no relacionamento com a sua família, os seus amigos, e no seu trabalho. Esses desequilíbrios formam uma onda, afetando todos ao seu redor e além. A mentalidade transacional do autointeresse é o problema do mundo moderno. Se você tivesse que deixar de buscar a felicidade, o que você faria? Para colocar isso de forma um pouco mais dramática, suponha que lhe dissessem que não importa o que você fez, você nunca seria feliz. Nunca. O que você faria com a sua vida?

Você pode prestar mais atenção nos outros. Você pode aceitá-los como eles são ao invés de procurar maneiras de “inventá-los” de acordo com sua ideia de como eles deveriam ser. Você pode começar a se referir à própria vida, ao invés de procurar o que obter dela. Você pode estar mais disposto a se envolver com o que a vida traz para você, com todos os seus altos e baixos, ao invés de sempre querer que ela seja diferente do que é.

Aqui é onde entra a prática de dar e receber. Pegue o que você não quer e dê o que você quer. Pegue o que é desagradável e dê o que é agradável. Pegue a dor e dê alegria.

Parece um pouco louco – um suicídio emocional, como uma pessoa colocou. Mas isso neutraliza a tendência profundamente arraigada de concentrar-se em si mesmo em primeiro lugar e em todos os outros em segundo. A atitude transacional é usada para destruir a si mesmo, porque você doa tudo o que te faz sentir feliz e você pega tudo o que faz os outros infelizes.

Nos ensinamentos tradicionais, você coordena o pegar e o doar com a respiração, pegando a dor e o sofrimento do mundo enquanto respira e doando a sua própria alegria e felicidade para o mundo enquanto expira. Faça isso com todos os aspectos da sua vida – o bom e o mau, o feio e o bonito. Estenda isso para tudo o que você experimenta, interna e externamente. Quando você vê outras pessoas lutando, por qualquer que seja a razão, imagine-se pegando as suas lutas e enviando-as para a sua própria experiência de paz, felicidade e alegria.

Não importa quem são eles: o rico, o pobre, o doente ou o criminoso. Se eles estão lutando, pegue as suas lutas e envie-as a alegria, a felicidade ou bem-estar que você experimenta, tem experimentado, ou espera experimentar. Se eles estão com dor, pegue a sua dor. Envie-lhes o seu alívio e conforto. Se eles estão causando dor, pegue o tumulto emocional ou intencional, ignorando que isso os leva a causar sofrimento aos outros. Envie-lhes o amor, a compaixão e a compreensão que você recebeu ou gostaria de receber.

Não edite a sua experiência de vida. O que quer que você encontre – um morador de rua tremendo em uma soleira gelada de concreto, um amigo cujo parceiro acabou de deixá-lo por outra pessoa, um parente que luta contra uma dor crônica, a notícia de fome, guerra, ou os efeitos devastadores da ganância, da corrupção, ou crenças inflexíveis. Qualquer que seja a dor, pegue-a.

Não seja mesquinho. Dê aos outros tudo e qualquer coisa que lhe traga alegria. É bem sucedido em seu trabalho? Dê o seu sucesso. Tem dinheiro no banco? Envie a alegria do bem-estar financeiro aos outros. Você aprecia sua inteligência, sua capacidade de pensar com clareza e resolver os problemas? Doe-os. Tem talento, musicalmente, fisicamente, ou artisticamente? Dê o seu talento. Você gosta dos amigos e companheiros? Doe-os.

A cada troca, entre em contato tanto com a dor e as deficiências no mundo quanto com a sua própria alegria e habilidades. Leve a dor e envie a sua alegria.

Esta prática conduz à felicidade? De modo nenhum; mas ajuda a entender o sofrimento e as lutas dos demais. Sejam quais forem os altos e baixos e as alegrias e as dores em que se encontram, você pode estar com eles, porque você sabe que a vida não é perfeita e você não espera que ela seja.

Como o meu professor disse uma vez: “Se você pudesse realmente tirar o sofrimento de todos no mundo, levando tudo isso para dentro de você com uma única respiração, você hesitaria?”.

Prática: Tonglen

Comece a sua sessão de meditação prestando atenção na experiência da respiração. Acomode a mente e o corpo. Em seguida, abra a sua consciência para tudo ao seu redor, tudo o que você vê, ouve, toca, cheira ou gosta. Inclua tudo o que você sente em seu corpo e todas as suas emoções, pensamentos, imagens. Então diga a si mesmo: “Isto é como um sonho”, e pergunte: “Que experiência é essa?” Não tente responder. Apenas pergunte e descanse por alguns momentos.

Então, pense em todas as lutas que você teve na vida: em sua família, com a doença, na escola, no trabalho, com o fracasso e a decepção, com a dor e a perda, e pense em como todo o resto do mundo tem as mesmas lutas – mais fáceis para alguns, mais difíceis para outros – e como eles querem se livrar delas, assim como você quer se livrar das suas.

Pense também sobre tudo o que traz alegria, felicidade, significado e paz para a sua vida: sua saúde, seus talentos, suas habilidades e capacidades, seus sucessos, sua família, amigos, colegas, sua casa ou jardim. Pense em como todo mundo, cada ser, quer o mesmo tipo de alegria, confiança, paz e liberdade. Descanse por alguns minutos.

Agora expire suavemente e imagine que você está dando, para todos os seres em todos os lugares, tudo o que traz alegria e felicidade, ou seja, a paz ou bem-estar para as suas vidas. Imagine tudo isso se transformando em luz, uma luz suave, como a prata do luar. A luz vem do seu coração, sai pelas narinas, leva toda a sua alegria e felicidade para todos os seres em todos os lugares.

Enquanto você respira, imagine-se pegando toda a dor do mundo, o sofrimento, a doença, a depressão, obsessão, agressão, opressão, dor, ferimentos, pobreza, ódio ou loucura, a dor de ser prejudicado e a dor de causar sofrimento – tudo o que leva as pessoas a lutar em suas vidas. Imagine tudo isso aderindo em uma fumaça pesada, espessa, negra que entra em você, através das suas narinas, e em seu coração, onde você sente isso.

Você faz isso para todos os seres, sem prejuízo, discriminação, preconceito ou preferência. Isto é equanimidade.

Mais uma vez, ao expirar, envie toda a sua alegria e felicidade, e de novo, enquanto respira, pegue todas as suas dores e lutas. Faça isso mais uma vez e mais uma vez. É importante fazer ambas as coisas com cada respiração, tocando a sua felicidade e enviando-a para fora, tocando as suas lutas e recebendo-as.

Talvez você encontre resistência emocional, seja para doar o que você aprecia ou pegar o que você teme e detesta. Não importa. Inclua sua resistência na prática e faça-a mesmo assim.

À medida que você se acostumar com essa troca, o que pode demorar um pouco, você irá descansar de uma forma diferente, em uma profunda aceitação da dor do mundo e as lutas que compõem a vida das pessoas. Nessa aceitação, há uma alegria tranquila, uma alegria na maravilha da própria vida.

(Mc Leod para a revista Tricycle, traduzida por Angélica Nedog, revisão Luis Oliveira - publicado no site Buda Virtual)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Sangha








A terceira jóia é a Sangha, que é a comunidade. A prática sem a comunidade é muito difícil. Tentar aprender sem um professor é muito problemático e um grande sinal de vaidade, nem Buda treinou sem professor. Antes de se iluminar ele teve vários professores. É freqüente escutar pessoas dizendo que não necessitam de professores ou instituição, que sozinhos e com leituras e estudos alcançarão a iluminação. Se fosse tão simples, não haveria necessidade de treinadores esportivos ou professores de música, não existe nenhum exemplo de pessoas que se desenvolveram em qualquer setor que seja sem um professor em algum momento. Podemos até superar nossos professores, mas no início precisamos de um guia. Precisamos que alguém que nos ajude, corrija e interprete nossas idéias, senão corremos o risco de ficar batendo a cabeça com pensamentos errados. Em mil novecentos e setenta e três eu conheci o Dharma, isso já faz quarenta anos e ainda hoje eu tenho um professor a quem apresento minhas dúvidas e perguntas. Tenho ciência de minha dependência de seus ensinamentos e em razão disso tenho medo que ele morra, pois seria o mesmo que perder um pai. Não vejo quando poderei prescindir de alguém para me ensinar o Dharma. É extrema vaidade pensar que sozinho sou suficiente, é uma grande tolice. Na sangha nós nos apoiamos, ensinamos uns aos outros e incomodamos uns aos outros. Quando alguém faz algo errado, é nosso mestre de tolerância. Quando alguém é chato, é nosso mestre de paciência. Se alguém diz uma bobagem, é nossa oportunidade de olhá-lo como um sábio. A sangha precisa de um professor, se não houver um professor autorizado e responsável é um clube de meditação e não uma Sangha.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Como a meditação me empoderou como mãe e mudou minha maternidade


Assim que meu filho nasceu, embora tivesse 32 anos, ainda era muito passional e pouco sabia lidar com minhas emoções. Lembro de um momento em que ele teve dificuldade para dormir e eu já não aguentava mais de cansaço, estava a ponto de explodir, via aquele bebezinho indefeso chorando no berço, porque eu não conseguia mais segurá-lo e me manter em pé, e não sabia mais o que fazer. Eu chorei, gritei, deixei-o chorando sem saber o que fazer (comigo mesma) para acolhê-lo. Me senti um lixo.

Nesse dia me dei conta que precisava saber lidar com meus sentimentos e precisava colocar isso em prática, porque meu bebê dependia de mim e aprenderia comigo a gritar ou a se acalmar. Eu sabia que a melhor maneira de resolver algo era dormindo, mas eu não podia dormir, ele mamava e chorava de noite, mais do que eu pensava que conseguia aguentar. Senti que precisava de alguns minutos sozinha, precisava ficar quietinha. Então, passei a meditar todos os dias à noite durante 5 minutos (só isso mesmo, garanto que foi o suficiente para começar), até porque eu estava tão cansada que não conseguia meditar mais tempo.


Hispanic mother and son practicing yoga


Enquanto meu bebê dormia ou estava com o pai (ou a avó), eu me fechava no quarto, sentava na cama e ficava 5 minutos respirando e deixando meus pensamentos passarem pela mente. Historinhas passavam em minha frente, porém, ao invés de pegar o fio da meada do pensamento e dar corda a ele, eu respirava e não prosseguia com a história. Passava pela minha cabeça “`Preciso preparar a comida” e antes de seguir com aquele pensamento: “vou comprar legumes, fazer feijão e arroz…etc, etc”, eu respirava e deixava o pensamento ir.

Com o tempo, além dessa meditação, acrescentei outra: não reagir a qualquer estímulo. Por exemplo, no silêncio do meu recolhimento, se alguém abrisse a porta, o instinto me faria virar para ver quem era, mas eu me exercitava a não reagir instintivamente. Ouvir os barulhos de fora e não querer saber o que era, nem me prender a eles. Esse método me ajudou a ver quais eram meus hábitos e principalmente os que eu queria mudar, como por exemplo, perder o controle de minhas emoções ou descontar em alguém.

Rapidamente eu já consegui passar da percepção de que tinha agido mal, logo em seguida de ‘escorregar’, para perceber o que estava sentindo, antes de reagir como de hábito. Isso é um passo gigantesco para nossa liberdade! Passamos a observar-nos mais e escolher como queremos agir, ao invés de agir por instinto, como um bichinho. Essa consciência sobre como estou me sentindo, me deu possibilidade de perceber também como os outros (e meu filho) se sentiam.

Como vi que ao parar por cinco minutos conseguia me compreender melhor, passei a meditar por mais 5 minutos de manhã. Uau! Minha percepção sobre mim mesma e minhas consequentes empatia e compaixão, brotaram como flor de lótus, da lama. Silenciar me dá tempo para observar e escolher. Conhecer melhor meus hábitos e reações emocionais , me fizeram compreender melhor meu filho. Assim, ao invés de julgar suas atitudes, hoje posso me colocar no lugar dele e acolhê-lo como acolheria a mim mesma, quando criança.

Não pense que não sinto mais emoções negativas, a diferença é que estou mais rápida na compreensão delas e encontro mais opções do que fazer com elas, que não seja perder a consciência ou agir de forma violenta ou desequilibrada. Cada vez que consigo perceber que estou, por exemplo, sentindo raiva e, antes de tomar uma atitude, consigo tomar as rédeas, como adulta, de meus sentimentos, me sinto muito melhor comigo mesma! Vejo em meu filho, a resposta positiva disso: ele fica mais calmo, mais feliz, mais centrado, mais seguro.

Não, não estamos perfeitos e nunca seremos, porque somos humanos. Meu filho faz escândalo como qualquer outro e sente-se inseguro às vezes. E eu me vejo com vontade de gritar com ele, quando ele começa a chorar ou gritar na rua, por exemplo. Mas ao invés de fazer isso, percebo que estou com vontade, respiro fundo, compreendo que ele não sabe como agir, e que eu já sei, sento com ele no colo e acolho nossas duas crianças num abraço amoroso!

A diferença de tudo é que quando meu filho faz um ‘escândalo’, hoje vejo como uma oportunidade de, no meu exemplo, ele aprender como lidar com seus sentimentos. É um exercício diário, como nos Alcoólicos Anônimos: “Só por hoje estarei mais atenta a minhas emoções e não responderei automaticamente a elas”. Assim os episódios de brigas e falta de consciência (meus e de meu filho) espaçam-se muito! Hoje não consigo lembrar quando foi a última vez que gritei (porém, meu filho não esquece que um dia fiz isso)!

Por Juliana Corullón

Sesshin em Brasília

Arte: Hugo Pullen