terça-feira, 23 de maio de 2017

O ponto de estrangulamento do medo

foto: Luis Julgmann Girafa


As limitações da vida estão presentes na concepção. Os próprios fatores genéticos são limitações: somos do sexo masculino ou feminino, temos propensão a determinadas doenças ou fraquezas corporais. Todas as linhagens genéticas reúnem-se para produzir determinados temperamentos. É evidente a qualquer mãe com o feto em seu ventre, as tremendas diferenças que existem entre os bebês, antes mesmo de nascerem. No entanto, para a discussão que propomos, começaremos com o bebê ao nascer. Para os adultos, o recém-nascido parece aberto e não-condicionado. Durante suas primeiras semanas de vida, o imperativo do bebê é a sobrevivência. Basta ouvir um nenê recém-nascido berrando: é fácil perceber como o som atravessa a casa toda. Não consigo me lembrar de nada que tenha a mesma qualidade revolucionária que o choro de um recém-nascido. Quando ouço aquele som quero fazer alguma coisa, qualquer coisa, para interrompê-lo. Não leva muito tempo para o bebê aprender que, apesar de seus esforços incessantes, a vida nem sempre é agradável. Lembro-me de deixar meu filho mais velho cair de cabeça, quando tinha seis semanas. Pensei que eu era uma mãe nova muito esperta, mas ele estava ensaboado e…

Desde muito cedo, todos começamos a tentar nos proteger das ameaçadoras ocorrências que nos atingem com regularidade. Diante do medo que nos causam, começamos a nos contrair. A natureza aberta e espaçosa do início da vida vai se estreitando num funil dentro do gargalo do medo. Assim que aprendemos a falar, a rapidez dessa contração aumenta. Conforme nossa inteligência aumenta, o processo realmente toma-se mais veloz; então, não só tentamos manipular a ameaça, armazenando-a em cada célula de nosso corpo, como (através da memória) relacionamos cada nova ameaça a todas as anteriores e o processo forma-se de modo acumulativo.

Estamos todos familiarizados com o processo de condicionamento: imaginemos que, quando eu era bem pequena, um menino grande, forte, de 5 anos e cabelos ruivos, apoderou-se de meu brinquedo favorito. Fiquei apavorada e condicionada. Hoje, toda vez que uma pessoa ruiva passa pela minha vida fico inquieta por nenhum motivo aparente. Poderíamos dizer então que o condicionamento é o problema? Não, não exatamente. Mesmo quando repetido com freqüência, o condicionamento se esvai com o tempo.

Por essa razão, alguém que fala: “Se você soubesse o que minha vida tem sido, não é de espantar que eu esteja nessa bagunça; sou tão condicionado pelo medo, não tem jeito”. Essa pessoa não está captando o cerne do problema. O que é sem dúvida verdade é que nós todos somos constantemente condicionados e, sob a influência desses incidentes, revemos devagar nossas concepções a respeito de quem somos. Depois de termos sido ameaçados em nossa abertura e disponibilidade, decidimos que nosso ser mais autêntico é a contração do medo. Revejo minhas noções de pessoa e de mundo, e defino uma nova imagem de mim mesma; e, independente de essa imagem ser de conivência, de rebeldia ou de recolhimento, não faz muita diferença. O que difere é minha decisão cega de agora ter de corresponder a essa imagem contraída de mim mesma para poder sobreviver.

O ponto de estrangulamento do medo não é causado pelo condicionamento, mas pela decisão a meu respeito, tomada com base naquele condicionamento. Felizmente, como essa decisão é composta por pensamentos e reflete-se em contração corporal, ela pode ser minha mestra quando me experimento neste exato momento. Não necessito forçosamente de um conhecimento intelectual do que foi meu condicionamento, embora ele possa ser útil. O que de fato necessito é saber que espécies de pensamentos insisto em alimentar neste presente momento, hoje, e que contrações corporais exteriores, tenho exatamente, hoje. Ao atentar para os pensamentos e ao experimentar as contrações corporais (fazendo o zazen), o ponto de estrangulamento do medo fica iluminado. Ao fazer isso, minhas falsas identificações com um self limitado (a decisão) aos poucos desaparecem . Posso ser cada vez quem sou de verdade. Um não-self, uma resposta aberta e disponível à vida. Meu verdadeiro self, desertado e esquecido há tanto tempo, pode funcionar agora, pois observo que esse ponto é uma ilusão.

Nessa altura vêm-me à mente dois famosos versos sobre um espelho (um de autoria de um monge que era especialista no Quinto Patriarca, e outro, de um anônimo que acabaria se tornando o Sexto Patriarca). Esses versos foram compostos de tal modo que o Quinto Patriarca deveria julgar se seu autor teria ou não alcançado a verdadeira realização. O verso do monge (aquele que não foi aceito pelo Quinto Patriarca como a verdade) afirmava que a prática consistia em polir o espelho; em outras palavras, removendo o pó de nossos pensamentos e ações ilusórios, o espelho poderia brilhar (estaríamos purificados). O outro verso (que revelou ao Quinto Patriarca o profundo entendimento do homem que seria escolhido como seu sucessor) afirmava que, desde o princípio, “não há espelho onde se mirar, não há espelho a ser polido, e não há onde o pó se apegar…”

Então, embora, o verso do Sexto Patriarca seja o entendimento verdadeiro, para nós o paradoxo é que temos de praticar com o verso que não foi aceito; precisamos mesmo polir o espelho; precisamos de fato tomar consciência de nossos pensamentos e atos; temos de nos conscientizar de nossas falsas reações à vida. Apenas agindo assim é que chegaremos a perceber que, desde o princípio, o ponto de estrangulamento do medo é uma ilusão. É óbvio que não temos de nos esforçar para nos libertar dela. Mas não podemos e não queremos saber disso até termos polido infatigavelmente o espelho que não existe.

Às vezes, as pessoas dizem: “Bem não há nada que precise ser feito. Nenhuma prática (polir) é necessária. Se você enxergar com suficiente clareza, tal prática não tem sentido”. É… porém nós não vemos com suficiente nitidez e, quando isso acontece, criamos um caos deslumbrado para nós e para os outros. É preciso de fato praticar, precisamos na realidade polir o espelho, até que possamos sentir em nossas vísceras a verdade de nossa vida. Assim, podemos enxergar que, já desde o início, nada era necessário.

Nossa vida sempre está aberta, disponível e útil. Contudo, não nos iludamos sobre quanta prática sincera devemos realizar antes de vermos tudo com a mesma clareza com que enxergamos nosso próprio nariz.

O que lhes estou apresentando é, sem dúvida, uma visão otimista da prática, embora haja ocasiões em que ela se tornará desestimulante e difícil. Outra vez, porém, a questão é: temos bastantes escolhas? Ou morremos — porque se permanecermos muito tempo entalados no ponto de estrangulamento do medo seremos estrangulados até a morte — ou lentamente conquistamos uma certa compreensão vivenciando o ponto e atravessando-o. Não creio que tenhamos tantas escolhas assim. O que vocês pensam?”

(Charlotte Joko Beck ) 
texto retirado de Dharmalog.com  

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Ser trazido para dentro de si mesmo - Ajahn Chah



foto: Lou Gaioto 




Experimentar a verdade não é uma expressão muito popular no Ocidente. Saber a verdade sim, parece uma expressão mais familiar, mais normal. Experimentar nem tanto. Como a verdade poderia ser experimentada? Em escolas de sabedoria orientais, como Yoga e Budismo, essa experiência da verdade é absolutamente essencial, pois a pessoa vê por si mesma que uma coisa é ou não é, percebe, sente, realiza. Não é concordar com, ou aceitar que algo pode ser, mas ver “por dentro” da própria coisa, ou nela mesma, se é ou não é — como alguém que passa por um luto sabe o que o luto é. Ou alguém que experimenta uma fruta amarga sabe o que o amargo é, como explica o célebre monge tailandês de Budismo Teravada, Ajahn Chah (Pra Bhodinyana Thera) (1918-1992), que ensinou muito sobre essa realização interior da verdade, essa experimentação por si mesmo. No trecho abaixo, há uma pequena centelha desse ensinamento.

"Enfatizo o ensinamento que o Dharma é opanayiko — “ser trazido para dentro de si mesmo” — de forma que a mente saiba, entenda e experimente os resultados do treinamento dentro de si mesma. Se as pessoas dizem que você está meditando corretamente, não acredite nelas tão depressa, e, da mesma maneira, se elas disserem que você está fazendo errado, não aceite o que dizem até que você tenha realmente praticado e visto por si mesmo. Mesmo se elas lhe instruírem na maneira correta que leva à iluminação, ainda assim é a palavra de outras pessoas; você tem que pegar o ensinamento delas e aplicá-los até que você experimente os resultados por si mesmo aqui neste momento. Isso significa que você deve se tornar sua própria testemunha, capaz de confirmar os resultados de dentro da sua própria mente.

É como o exemplo da fruta amarga. Eu disse a vocês que uma certa fruta tinha gosto de amarga e convidei vocês a experimentar. Vocês teriam que comer um pedaço e experimentar o amargor. Algumas pessoas iriam acreditar na minha palavra se eu dissesse que a fruta era amarga, mas se elas simplesmente acreditassem que era amarga sem nunca experimentá-la, aquela crença seria inútil (mogha), não teria nenhum valor de significado. Se eu descrevesse a fruta como amarga, seria meramente minha percepção dela. Só isso. O Buda não pregou tal crença. Mas você também não pode simplesmente ignorá-la: investigue. Você deve experimentar a fruta por si mesmo, e ao saborear seu sabor de verdade, você se torna a própria testemunha interna. Alguém diz que a fruta é amarga, então você a pega, come e descobre que é realmente amarga. É como se você tivesse se certificando duplamente — se baseando na própria experiência e no que as pessoas dizem. Dessa maneira você pode realmente ter confiança na autenticidade do sabor amargo, você é a testemunha que atesta a verdade”.

— Ajahn Chah, Sofrendo na Estrada (Suffering on the Road) Texto retirado do dharmalog.com.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Gakudo Yojin-shu - Pontos a observar no Estudo do Caminho - Mestre Dogen (*)



1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi

A Mente-Bodhi é conhecida por muitos nomes, porém todos se referem à mesma Mente Una. O Venerável Nagarjuna[1] disse, “A mente que vê através do fluxo do aparecer e desaparecer e reconhece a natureza transitória do mundo é também conhecida como Mente-Bodhi.” Por que então, a dependência temporária nesta mente é chamada de Mente-Bodhi? Quando a natureza transitória do mundo é reconhecida, não aparece nem a mente egoísta comum nem a mente que busca fama e proveito.

Ciente de que o tempo não espera por ninguém, pratique como se estivesse tentando apagar o fogo em seus cabelos. Reflita sobre a natureza transitória do corpo e da vida, se esforce exatamente como o Buda Xaquiamuni fez quando levantou seu pé[2].

Mesmo que ouça o chamado bajulador do deus Kimnara e do pássaro Kalavinka[3], não preste atenção, considere-os apenas como a brisa do anoitecer soprando em seus ouvidos. Mesmo que veja uma face tão bela como a de Mão-cha’ng ou Hsi-shih[4], pense nela apenas como o orvalho da manhã bloqueando sua visão.

Quando livre do apego ao som, cor e forma, naturalmente se tornará um com a verdadeira Mente-Bodhi. Desde os tempos antigos existiram aqueles que ouviram pouco sobre o verdadeiro budismo e outros tiveram pouca oportunidade de ouvir, ler e estudar os sutras. A maioria deles caiu na armadilha da fama e lucro, perdendo a essência do Caminho para sempre. Que pena! Que lamentável! Não ignorem isto.

Mesmo que você tenha lido os meios expedientes ou verdadeiros ensinamentos de grandes sutras[5] ou transmitido os ensinamentos esotéricos[6] e exotéricos, a menos que abandone fama e lucro, não se poderá dizer que tenha despertado a Mente-Bodhi.

Alguns dizem que a Mente-Bodhi é o mais alto e supremo estado de iluminação de Buda, livre da fama e do lucro. Outros dizem que é aquilo que abrange um bilhão de mundos[7] em um único momento de pensamento, ou que é o ensinamento no qual nenhuma delusão surge. Outros ainda, dizem que é a mente que entra diretamente no plano de Buda. Estas pessoas, ainda sem entender o que é a Mente-Bodhi, de maneira devassa a caluniam. Elas estão, na verdade, muito longe do Caminho.

Reflita sobre sua mente comum, como está egoisticamente apegada, à fama e ao lucro. Está possuída pela essência e aparência dos três mil mundos, em um único momento de pensamento? Este pensamento único experimenta o portal do dharma do não nascido? Terá ela experimentado o ensinamento que não desperta uma única delusão? Não! Nessa mente apegada não há nada a não ser delusão de fama e de lucro, nada digno de ser chamado de Mente-Bodhi.

Muito embora desde os tempos antigos tenham existido Budas Ancestrais que usaram métodos seculares para realizar a iluminação, nenhum deles esteve apegado à fama e ao lucro, nem mesmo ao Dharma, quanto menos ao mundo comum.

A Mente-Bodhi é, como foi mencionado anteriormente, aquela que reconhece a natureza transitória do mundo – uma dos quatro percepções[8]. É completamente diferente daquela apontada pelas pessoas confusas.

A mente do não surgimento e a mente do aparecimento de um bilhão de mundos são práticas muito boas após se ter despertado a Mente-Bodhi. “Antes” e “após”, no entanto, não devem ser confundidos. Apenas esqueça de si e tranqüilamente pratique o Caminho. Esta é verdadeiramente a Mente-Bodhi.

Os sessenta e dois pontos de vista estão baseados no eu[9], portanto, quando visões egoístas aparecem, apenas faça zazen tranqüilamente, observando. Qual é a base de nosso corpo, suas posses internas e externas? Você recebeu seu corpo, cabelo e pele de seu pai e de sua mãe. Entretanto, as duas gotas de seus pais, vermelha e branca[10], são vazias do início ao fim, portanto, não há nenhum eu aqui. Mente, consciência discriminativa, conhecimento e pensamento dualístico amarram a vida. O que, em última instância, são inalar e exalar? Não são o eu. Não existe nenhum eu para se apegar. A pessoa deludida, entretanto, está apegada a si mesma e a iluminada está desapegada. Ainda assim vocês procuram medir o eu que é não eu e se apegam ao surgir que é não surgir negligenciando a prática do Caminho. Por falhar em cortar suas amarras com o mundo fogem do verdadeiro ensinamento e correm atrás do falso. Vocês se atreve a dizer que não estão agindo erroneamente?

[1] Nascido em uma família de Brahman (ver “O Mérito de Se Torna Monge” ) nota 9: no sul da Índia no segundo ou terceiro século AD, tornou-se um dos principais filósofos do Budismo Mahayana, sendo considerado como o Décimo Quarto Ancestral na linhagem da transmissão do Darma. Ele defendia a teoria de que todos os fenômenos são relativos, não tendo uma existência independente.


[2] No Budismo Mahayana se acredita que o fundador histórico do Budismo, Buda Xaquiamuni, atravessou inúmeras transmigrações antes de finalmente realizar a iluminação. Também se acredita que antes do Buda histórico tiveram milhares de pessoas que já tinham atingido o “Estado de Buda”, sendo um deles o Buda Pusya. Quando o Buda Xaquiamuni em uma de suas vidas anteriores encontrou este Buda, é dito que para mostrar seu respeito para Pusya, Xaquiamuni permaneceu com um pé levantado por sete dias e noites cantando um sutra.

[3] Kimnara é um deus indiano da música. O kalavinka é um pássaro mítico indiano com uma bela voz.

[4] Estas duas mulheres são consideradas entre as mais belas cortesãs da antiga China.

[5] “Ensinamentos verdadeiros” refere-se propriamente aqueles do Saddarma-pundarika. Avatamsaka, e do Mahaparanirvana Sutra e “livros” incluem todos os outros ensinamentos.

[6] Os ensinamentos esotéricos são encontrados nas escolas Shingon japonesa e Tendai, e refere-se a doutrinas e rituais com grande influências do hinduísmo, que se desenvolveram na Índia durante os séculos sete e oito. Estes ensinamentos, tendo propriedades mágicas, apenas podem ser revelados àqueles que foram devidamente iniciados. Os ensinamentos exotéricos se referem a todos os outros ensinamentos.

[7] Pensava-se que todo o universo, em sua integridade, fosse constituído de um bilhão de mundos.

[8] Em inglês insights. De acordo com o Novo Dicionário Aurélio: Compreensão repentina, em geral intuitiva, de suas próprias atitudes e comportamentos, de um problema, de uma situação.

Os outros três insights são: (1) que o corpo é impuro; (2) que a percepção conduz ao sofrimento; e (3) que a mente é impermanente.

[9] Em inglês: “self”.

[10] A gota vermelha representa o óvulo da mãe e a branca o esperma do pai.


(*) Pontos a Observar no Estudo do Caminho, Gakudo Yojin-shu, é um dos textos usados para aprofundar a compreensão dos iniciantes no Zen Budismo e para aqueles que se engajam no Curso de Preceitos. A tradução atual é uma revisão modificada e melhorada daquele texto original e se baseou em várias versões em Inglês organizadas por diferentes mestres:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

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